A (des)continuidade - Traditionis Custodes (Parte final)


Comentávamos como o motu proprio Traditionis Custodes buscou implementar um novo conceito na Igreja para garantir a unidade sob uniformidade ritual, vez que este é o pano de fundo de todo o documento pontifício. Agora que vivemos uma nova realidade desfavorável ao missal anterior, fica uma inquietação constante, que leva uns ora ao abandonar a Igreja, ora a ficar no limite da proa da barca de Pedro, ora a permanecer atordoado em alguns momentos e alguns ainda firmes. 

Diante disto, historicamente falando, sabemos que este documento teria sido precedido por uma ampla consulta ao episcopado do mundo inteiro, cujas respostas não foram divulgadas (e, logicamente, não precisam ser), acerca da implementação do motu proprio Summorum Pontificum, em que se indagava como este era implementado nas dioceses e quais eram as opiniões dos bispos sobre a forma extraordinária do rito romano.

Apesar de não termos as respostas publicadas sobre a sondagem ao episcopado, ocorreu que após a publicação de Traditionis Custodes, se acendeu a chama da dúvida em muitos, fazendo com que alguns sites tradicionalistas (com uso de fontes romanas, leia-se fofocas vaticanas) dissessem que as respostas não tinham sido aquelas esperadas, ou seja, o documento buscaria se apoiar em uma maioria de opiniões e, não as tendo encontrado, ainda assim foi publicado.

Isto não importa. O que importa hoje é que a situação da missa antiga foi ameaçada pela autoridade máxima da Igreja, a quem todos devemos obediência, respeito e amor. Esta decisão papal foi tomada com erros? Particularmente, creio que sim. Posso evitá-la? Não. O que posso fazer? Encorajar, agregar, rezar, apoiar e divulgar cada vez mais as missas remanescentes, pois " não se acende uma lucerna, e se põe debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, a fim de que dê luz a todos os que estão em casa" (Mt. 5, 15).

Qual é agora a nossa missão? Alguns diriam que deveríamos resistir. Esta palavra soa bela àqueles que não fogem de uma boa briga, de um debate acalorado, de uma bravata litúrgica. Porém, vejam bem. Isto é o que eles esperam que seja feito: uma luta, uma troca de farpas, uma briga física, psicológica, de egos e autoridades. Tudo isto deve ser evitado, senão só terão mais motivos para dizerem: "são desobedientes, renegam o Papa, o Concílio...e por aí vai" e darão argumentos, narrativas para o próprio fim.

Por que não lutarmos, sim, pela oração, pelo jejum, pelo estudo da liturgia, de seus textos, de suas composições gregorianas, de sua espiritualidade, de sua pobreza frente aos ritos orientais, de sua história tão rica e variada, de sua nobreza e, por último, de sua função em nos aproximar dos nossos antepassados, deste cheiro de mártires que só ela tem?

A nossa missão, portanto, é aquela mesma dos judeus sentados junto aos rios da Babilônia (cf. Sl. 136) de termos saudades de Sião, saudade que apregoou o coração litúrgico do salmista quando compôs o salmo 42 que recitamos na missa: "Faz-me justiça, ó Deus, e defende a minha causa...Envia a tua luz e a tua fidelidade: elas me guiem, me conduzam ao teu santo monte e aos teus tabernáculos. Por que te deprimes, minha alma? Por que te conturbas dentro de mim? Espera em Deus, porque novamente o hei-de louvar, (a ele que é) a salvação do meu rosto e o meu Deus".

Concluo, então, que enquanto tivermos oportunidade de acesso ao rico patrimônio da Igreja que é a sua liturgia antiga, não podemos nos dar o "luxo" de evitá-la, mas devemos com toda força esperar tempos melhores e maior liberdade para adorar a Deus em espírito e verdade pela Missa Tradicional na Santa Igreja, sob o Papa e sob o Bispo que Deus nos concedeu na história, a fim de que salvemos a nossa alma e O adoremos face a face.

Comentários

Postagens mais visitadas