Quero ficar com a Igreja!

Arquivo Pessoal
Ao finalizar o ano santo de 1967/1968, declarado como ano da fé, para lembrar os 1900 anos do martírio dos santos Pedro e Paulo, o papa S. Paulo VI fez uma profissão de fé chamada de Credo do Povo de Deus. Este texto vinha a explicar e reafirmar as verdades de fé professadas pela Igreja em um ano que muitos, inclusive, dentro da Igreja e de sua estrutura hierárquica, estavam a deixar de professar estas verdades.

Assim, quando falava do crer na Igreja, o papa exclamou: "Cremos que a Igreja, fundada por Cristo e pela qual Ele orou, é indefectivelmente una, na fé, no culto e no vínculo da comunhão hierárquica. No seio desta Igreja, a riquíssima variedade dos ritos litúrgicos e a diversidade legítima do patrimônio teológico e espiritual ou de disciplinas peculiares, longe de prejudicar a unicidade, antes a declaram".

Lembremos que o ano era 1968, quando a liturgia romana estava sofrendo a migração para a sua forma moderna, atual, isto é, a chamada missa de Paulo VI ou missa nova. Naquele mesmo ano, teve o papa que declarar a inviolabilidade da vida humana e manutenção dos princípios morais sobre o casamento e a contracepção (tão difundida daquele ano em diante), publicando também a encíclica Humanae Vitae. Com isto, percebemos que até aqueles temas de fé tão próximos aos homens, como a liturgia e a moral, tinham de ser novamente explicitados, vez que se vivia uma "nova primavera".

Naqueles anos imediatamente posteriores ao final do Concílio Vaticano II, a liturgia era o campo de batalha e a forma de celebrá-la definia a qual lado se pertencia, tendo de um lado os progressistas (que eram tidos como os verdadeiros católicos) e do outro lado os tradicionalistas (que eram tidos como inimigos do Papa), uns e outros contavam com prelados e leigos ativos, mas o lado progressista dominava mais espaços e principalmente os locais de ampla difusão de mensagens, como grandes santuários, mídias de comunicação - imprensa católica e secular - e as universidades e seminários.

Cada lado tinha também um modo de ser reconhecido na liturgia, seja pela ars celebrandi, seja pela homilia, seja pelos paramentos ou por seguir o que estava escrito para ser feito e dito. Mas, poucos de um lado e do outro estavam pela Igreja. Muitos queriam somente denunciar-se mutuamente, falando dos abusos crescentes e das palavras novas que entravam na "novilíngua" eclesiástica, como "povo de Deus", "caminhada", "libertação", "opressão", "andar para frente", "aggiornamento (atualização)". Quem viveu aquele período tinha duas escolhas fáceis e uma difícil, as fáceis eram seguir um dos lados e a difícil seguir a Igreja.

A voz da Igreja já não era una; em cada diocese, às vezes, em uma diocese vizinha, o modo de expressar a fé não era o mesmo, a liturgia não era a mesma. Como identificariam a voz da Igreja? A resposta seria simples: continuar fazendo o que a Igreja sempre fez. O que a Igreja sempre fez? Responde também S. Paulo VI na mesma profissão de fé, que a Igreja deve: "conservar, ensinar, explicar e difundir a Verdade que Deus revelou aos homens, veladamente de certo modo pelos Profetas, e plenamente pelo Senhor Jesus."

A divisão que se instaurava no seio da Igreja não era reprimida com a autoridade pontifícia, nem perseguida pelos bispos e sacerdotes, mas continuava a se infiltrar e desagregar mais e mais as fileiras de católicos, que na Holanda, por exemplo já não consideravam mais nem ir à missa aos domingos porque a liturgia já não tinha mais o que lhes falar. Porém, assim como o joio foi crescendo junto com o trigo e continua no campo até o momento da colheita, assim também temos boas e más liturgias até hoje.

Por isto, pela divisão eclesial, argumentou o Papa Francisco em sua carta aos bispos que acompanhou o motu proprio Traditionis Custodes, que a sua decisão em revogar a concessão dada pelos seus dois predecessores acerca da liturgia romana anterior ao Concílio Vaticano II era tomada para garantir a unidade da Igreja: "é para defender a unidade do Corpo de Cristo que me vejo obrigado a revogar a faculdade concedida pelos meus predecessores. O uso distorcido feito dela é contrário às razões que os levaram a conceder a liberdade de celebrar a missa com o Missale Romanum de 1962".

Esta aparente contradição com S. Paulo VI, S. João Paulo II e com Bento XVI faz deste argumento mais um elemento para a ruptura litúrgica e um crescente para a divisão e não para a unidade. Ora, quem já não obedecia ao papa não o obedecerá agora, e quem o obedece se vê penalizado sem culpa. A grande tolerância para com o erro não é exercida para com a verdade.

Restaurar a unidade da Igreja por meio da liturgia era o intento do papa Bento XVI que, participando do Concílio enquanto perito mais voltado aos progressistas, percebeu o rumo que isto levava a Igreja e tendo voltado atrás, encontrou na liturgia - como bom apreciador do movimento litúrgico do início do século XX - o lugar de, com o exemplo, restabelecer a unidade da fé no culto latrêutico atual com maior proximidade estética e formal ao missal anterior.

Este pensamento do papa Francisco se baseia na ideia de uma continuidade entre os missais de 1962 e 1970, tendo este sido um desenvolvimento daquele, e que São Pio V também tinha tomado uma decisão similar quando da promulgação do seu  missal no século XVI, que visava garantir a unidade pela unicidade ritual sob o rito romano para a Igreja Católica. A diferença mais importante, a meu sentir, é a de que São Pio V agiu pelo missal romano contra as heresias protestantes acerca da missa, da expiação dos pecados e da graça, enquanto o papa Francisco assim o agiu sem nenhuma heresia contra o novo missal, mas somente para não deixar espaço para o crescimento do anterior e a sua futura derrogação pelo desuso.

Em suma, a questão litúrgica na Igreja não foi apaziguada, mas somente recebeu mais combustível e para piorar não se tem a quem recorrer, humanamente falando.

Para concluir, exponho que algumas décadas depois de Paulo VI, o papa Bento XVI lembrou-nos que "a Igreja é o lugar onde Deus 'chega' a nós e donde nós 'partimos' para Ele; a este mundo que tende a fechar-se em si próprio, a Igreja tem a missão de o abrir para além de si mesmo e levar-lhe a luz que vem do Alto e sem a qual se tornaria inabitável". Esta característica de lugar denota que além de necessitarmos estar na Igreja, precisamos estar com Ela em qualquer lugar e em qualquer situação, independente de nossas preferências e vontades. Portanto, quem ficará com Ela e Nela até o fim será salvo. Que Deus nos ajude nisto! 

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