Entre a Tradição e o Sectário: uma experiência pessoal com a FSSPX

Os bispos e o Superior da FSSPX durante peregrinação jubilar a Roma, em 2025.
Crédito da imagem: Una Vox Itália

Devo admitir que por influência do local onde iniciei a assistir as celebrações segundo o missal de 1962, guardava uma certa distância de tudo aquilo que representasse a ideia, mínima que fosse, de aproximação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). Nem seu site gostava de acessar. Parecia que da mesma forma que a FSSPX tem medo de se “contaminar” com “Roma” (expressão que caracteriza a Igreja Católica após o Concílio Vaticano II, especialmente a cúria romana e seu estamento) eu tinha medo de me “contaminar” com ela.

Noutras palavras, percebo hoje que reproduzia, em sentido inverso, o mesmo reflexo psicológico que sempre critiquei: assim como a Fraternidade teme ‘Roma’, eu temia a Fraternidade. Havia em mim uma espécie de reflexo defensivo, curiosamente semelhante àquele que a própria Fraternidade costuma manifestar em relação à assim chamada “Igreja pós-conciliar”.

Entretanto, foi com as redes sociais, especialmente o Instagram, que passei a olhar com outros olhos para a posição afirmada da FSSPX. Contudo, fincava posição parecida somente no contexto do pontificado do Papa Francisco e de alguns atos dos papas anteriores a ele. Comecei a achar perigosa essa vida dupla de críticas aos atos dos papas. Logo eu, leigo, que queria exigir obediência do papa.

Depois percebi que não exigia nada do papa, apenas estava consciente daquilo em que acreditava e via que não havia coerência entre o texto da doutrina e a práxis. Entretanto, não tenho autoridade e nem tinha “plateia” para me expor (como não tenho até hoje). Reduzi-me, então, para a minha insignificância e, como já descrevi noutro texto, passei a rezar pelo papa (coisa que não gostava de fazer) em vez de criticá-lo somente; afinal, oração nunca é demais.

Fechados os parênteses e voltando ao tema, de certa forma, eu teria assumido uma ideia da FSSPX de resistência¹ao pontificado de Francisco e assim me mantinha distante de qualquer de suas decisões. Entendia que aquele pontificado era uma expressão nítida e contumaz da crise pós-conciliar e talvez uma ruptura mais acelerada da Igreja Católica com seu passado. Com a internet, o Instagram, na verdade, passei a perceber que a resistência, quando absolutizada, corre o risco de deixar de ser um meio para se tornar um fim em si mesma.

Assim, durante a pandemia li diversos textos dos padres da FSSPX e ousei (me permiti) ler alguns livros editados pela Editora Permanência, entre eles a trilogia famosa de Michael Davies, bem como o “Catecismo Católico da Crise na Igreja”, “O Movimento Litúrgico” e mais alguns dois outros títulos que não recordo enquanto escrevo. Aproveitei o tempo que tinha e também li “O Concílio Vaticano II” de Roberto de Mattei, e alguns trechos da “bíblia” da tradição “Iota Unum” de Romano Amerio.

Essas leituras não me tornaram um adversário da "Igreja pós-conciliar", mas me deram instrumentos para compreendê-la criticamente, sem caricaturas. Porém, nada disso me conduziu a estar contra a Igreja, mas a um amor mais exigente por ela e por abraçar essa sua cruz conjuntamente.

Mas é bem verdade também que todos esses livros mudaram minha perspectiva sobre o posicionamento da Fraternidade e depois disso pude verificar com meus olhos que ela não era o monstro que pensava que fosse.

Com coragem, e tendo lido de outros sacerdotes e visto as respostas e perguntado a sacerdote de confiança sobre frequentar as missas celebradas pelos padres da Fraternidade, e sendo estas favoráveis, fui assistir a uma missa na capela ligada a FSSPX na minha cidade.

Por incrível que pareça, a capela ficava a menos de dois quilômetros da minha casa e o horário de missa era muito bom.

Todavia, ainda me sentia um peixe fora d’água naquele local. Além do mais, alguns fatores me desestimularam a continuar ali: minha esposa se sentia mal naquele lugar, mas me acompanhava; meus filhos são muito inquietos e barulhentos devido a idade tenra e na capela reina um silêncio constrangedor até para uma pessoa com deficiência auditiva. Essa realidade acabava por reforçar a sensação de não pertencimento àquele local e àquele grupo religioso.

Para além de tudo isso, restava sempre um ponto de interrogação em minha cabeça: será que estou fazendo a coisa certa em frequentar essa capela?

Então, em uma das missas dominicais, levei minha família e tivemos de ficar do lado de fora da capela porque meus filhos estavam muitíssimo inquietos. Do lado de fora, somente ouvíamos missa, minha esposa não estava gostando de estar ali para assistir à missa, o sol estava nos incomodando, as cadeiras também, enfim, tudo confluía para o desastre. Porém, foi quando ouvi uma frase do sacerdote que resolvi dar fim naquilo (de estar na capela da FSSPX): “Só temos dois bispos no mundo inteiro”.

Imediatamente eu tentei processar na minha mente aquilo que ouvia. O padre falava que, em breve, um dos bispos que auxiliam a FSSPX estaria na minha cidade para administrar o sacramento da Crisma, mas que seria em um dia útil pela tarde, mas que à noite estaria na missa aberta a todos os fiéis.

Logicamente, entendi que o padre quis dizer que a FSSPX depende, no momento, de dois, dos quatro bispos sagrados em 1988, e que estes dois percorrem o mundo administrando os sacramentos da crisma e da ordem a fim de dar perpetuidade ao legado de Dom Marcel Lefebvre de resistência ao Concílio Vaticano II e seu magistério posterior.

Por outro lado, eu entendi o outro sentido da frase e foi este que me fez sair no mesmo instante da missa e procurar outro local para cumprir o preceito dominical. A frase do padre, ainda que explicável em um sentido técnico interno, revelava algo mais profundo para mim: uma linguagem que, repetida sem cuidado, reconfigura silenciosamente a noção mesma de Igreja

O outro sentido é aquele que me inquietava: um clubismo católico, um odor de seita² que pairava ali e naqueles chavões que se repetiam, não entre o padre (porque das homilias que ouvi, nunca fez esse tipo de comentário). Ali não vi apenas um problema de expressão, mas “um sintoma de um imaginário eclesial perigosamente estreito”. Dizer que só há dois bispos no mundo é demais para mim! Até o papa não seria bispo, desse modo. É grave!

Sem críticas aos fiéis da citada capela, é difícil permanecer naquele local sem se imbuir dessa ideia de “nós” e “eles”, deste sectarismo de presumir o bom-mocismo e de se afastar voluntariamente, conscientemente e até com argumentos teológicos, históricos e canônicos da comunhão da Igreja Católica. Afirmar que o Estado de Necessidade é vontade de Deus também parece loucura e tudo isso me veio à mente naquele breve momento.

Argumento, no sentido, do Estado de Necessidade que o extraordinário não pode ser canonizado sem corroer o ordinário, isto é, o que nasce como remédio provisório não pode ser transformado em princípio estável, perene e indissolúvel, sob pena de subverter a ordem normal da vida eclesial. E o normal é estar ligado à estrutura da Igreja: aquilo que é tolerado para salvar a Igreja em tempos de crise não pode ser elevado a modelo permanente sem deformar a própria Igreja.

Se erro, erro buscando permanecer na comunhão visível da Igreja, que sempre foi, apesar de suas crises (já que esta que presenciamos não é a primeira, mas julgo ser uma bem forte, que mexe na estrutura da própria Igreja), o lugar ordinário da salvação confiada por Cristo Senhor.

Enfim, resolvi expor o que penso. Em breve, ou talvez quando der tempo, exponho mais meus argumentos.

Não escrevo para convencer, mas para ser fiel àquilo que, em consciência, compreendi como verdadeiro. O juízo último não pertence aos homens, mas a Deus, por isso poderei ser chamado de muita coisa por aí depois dessas linhas, mas não ligo. Talvez, também, ninguém leia isso aqui, o que não muda os fatos e a minha perspectiva.

Notas:

[1]. Utilizo o termo resistência não como a dissidência da FSSPX encabeçada como movimento autônomo pelo bispo Richard Williamson, mas sim denotativamente, como oposição, portanto.

[2]. Uso a expressão ‘odor de seita’ não no sentido de uma acusação formal, mas como percepção de um fechamento identitário incompatível com a catolicidade da Igreja. Não se trata de má-fé, mas de uma lógica interna que, se levada às últimas consequências, compromete a comunhão. (Antes que afirmem que quem não está em comunhão são “eles” que se afastaram da verdadeira Igreja, afirmo que foi a Pedro e não a outro bispo, por mais santo que for, que Cristo rogou ao Pai para que a fé não desfaleça e para que confirmasse os seus irmãos).

Comentários

  1. Texto muito bom. Acredito que passei por uma experiência semelhante (faz pouco mais de um ano que frequento a fsspx): deixei de escutar as acusações contra a fraternidade, e fui em busca de estudos e posições por fontes da mesma fraternidade, principalmente os escritos do Pe. Gleize e do Pe. Calderón. Com os escritos deste último, creio que encontrei uma resposta salutar (temporária, talvez...) ao problema da crise, e por essa e outras razões frequento a fsspx há pouco mais de um ano.

    Realmente, há um "ar de seita", porém ouso dizer que isso é um fenômeno local, seja por influência de um ou outro sacerdote influente (e no caso do Brasil, talvez seja devida à Permanência), ou por limitações que o apostolado da fsspx tem em alguns locais, como aqui em Fortaleza.

    Vi em outros locais que não é assim, e para tal eu dou dois exemplos: a fsspx em SP e, fora do País, a de Buenos Aires, onde há um priorado deles.

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