Durante um período significativo da minha vida, a forma ordinária de missa que frequentei foi aquela hoje chamada de Forma Extraordinária do Rito Romano, conforme a nomenclatura introduzida pelo Papa Bento XVI. Por vários anos, a missa dominical à qual assistia era celebrada segundo o Missal de 1962; apenas na sua ausência, ou quando me encontrava em locais onde ela não era celebrada, recorria à missa segundo o Missal Romano atual.
Em termos de preferência pessoal, a missa segundo o Missal de 1962 permanece, até hoje, a que mais plenamente me corresponde. Nela percebo uma coerência inequívoca entre a fé da Igreja e a sua catolicidade, ao passo que, na forma atual, frequentemente se observa um protagonismo difuso e instável, ora centrado no celebrante, ora deslocado para a assembleia.
Nesse tempo, até mesmo o calendário litúrgico mostrava-se mais pedagógico. A liturgia da Semana Santa — ainda que eu a tivesse vivido apenas no Domingo de Ramos e na Páscoa — era mais dramática, sem jamais resvalar no teatral, profundamente solene, precisa nas palavras e nos gestos e, ao mesmo tempo, simples no desenrolar da cerimônia. Tudo isso facilitava a prática devocional e contribuiu decisivamente para o amadurecimento da minha consciência litúrgica.
No domingo da Epifania, tive que recorrer à missa perto da minha casa. A assembleia era barulhenta, as roupas das pessoas eram de festa na piscina (para não dizer em outro lugar), a música era da pior qualidade - desrespeitosa ao mistério que se celebrava, descompassada e até desafinada - e interiormente não queria estar ali. Ao menos, o sacerdote não improvisava o que dizia, lia o que estava previsto no missal e ponto.
Contudo, por infortúnio e motivos que ainda não convém escrever publicamente, não consigo mais viver essa experiência extraordinária de ter como missa dominical a missa antiga, o que me dói profundamente.
Vejo na missa romana atual uma profunda falta de coerência interna. Falta-lhe universalidade efetiva, ainda que o missal esteja presente nos cinco continentes; falta-lhe historicidade, pois seus autores pertencem ao mesmo século em que nasci, são contemporâneos dos meus pais, por exemplo; falta-lhe o testemunho da perseguição, já que os mártires viveram e morreram sob outra liturgia; falta-lhe, por fim, unicidade, pois cada sacerdote acaba por celebrar a sua própria missa.
Bastará mudar da sua paróquia para outra que encontrará uma missa diferente. Aliás, na mesma paróquia, basta assistir todas as missas dominicais que perceberá diferenças essenciais, não acidentais, nas celebrações. Cada padre celebra a sua própria¹ missa, com suas palavras mais adequadas que o texto do missal, com suas musiquinhas intercalando momentos nos ritos, com sua espontaneidade, com suas raivas e faltas de educação nítidas, com seus gestos escandalosos ou não previstos nas rubricas romanas.
É aqui que assistimos ao eclipse da liturgia romana. É nesse contexto, verdadeiramente, que se pode falar, com propriedade, de um eclipse da liturgia romana. Não houve verdadeiro desenvolvimento orgânico, mas uma descontinuidade histórica perceptível. Não houve desenvolvimento litúrgico. Houve descontinuidade histórica. O resultado é a fragmentação do rito romano, cuja identidade se dissolve na multiplicidade de estilos, escolhas pessoais e improvisações.
Utilizo deliberadamente o termo “autores”, pois é possível identificar historicamente quem redigiu os textos, as rubricas e as anáforas da nova missa, bem como conhecer os métodos adotados em sua elaboração, marcados decisões técnicas, marcadamente positivistas, de natureza burocrática e moderna, circunstanciais e, por vezes, experimentalistas. Eles deixaram escritos sobre isso, contaram suas histórias, explicaram como escreveram anáforas (orações eucarísticas) com máquinas de escrever e até mesmo fizeram nos guardanapos os rascunhos enquanto estavam sentados à mesa de restaurantes.
Historicamente, buscaram fontes pesquisando na Patrística como se celebrava no Oriente Cristão, mas ousaram repristinar ritos e costumes que haviam sido abandonados ao longo do desenvolvimento histórico da liturgia, adaptando tudo que encontravam para a modernidade e lhes apetecesse.
Esses autores da missa tiveram um poder amplo para desconfigurar e configurar a liturgia romana em atos burocráticos e monocráticos, muitas vezes. Tudo acabou desaguando em uma liturgia sem conexão com o desenvolvimento litúrgico anterior e internamente múltipla e polissêmica, capaz de ser agradável aos “irmãos separados”² na tentativa de fazê-los se converter.
A polissemia é tanta que para aplicar o conceito de “Reforma da Reforma”³ querido por Bento XVI, o sacerdote deve fazer escolhas criteriosas e constantes para celebrá-la, isto é, diante da variedade de textos, deverá ter sempre uma prudência redobrada, quase artesanal, e uma orientação/sensibilidade litúrgica aguçada para mimetizar a forma nova com a antiga, o que, por si só, evidencia a fragilidade estrutural da reforma litúrgica.
Apesar de todos esses problemas, reconheço a validade e a licitude da missa segundo o missal romano atual. Contudo, não posso admitir por obediência à Igreja e amor a Deus, como bem disse em outras oportunidades quando falei acerca das incoerências do Motu Proprio Traditionis Custodes, que ela seja a única expressão da lex orandi da Igreja de Rito Romano, porque ela não é 一 e ponto.
Agora, sair escrevendo livro para defender a missa nova é o mesmo que enxugar gelo sob o sol de Quixadá ao meio-dia no verão.
Por isso, ainda que deva continuar assistindo à missa romana atual dominicalmente e nas festas de preceito, vou cansado e muitas vezes saio pior do que entrei. Pode ser falta de fé, de graça divina, de caridade; posso ser apenas mais um mesquinho e egoísta. Ainda assim, continuo e não desisto. Desistir de Deus seria a pior tragédia da minha vida, e se Deus permite essa crise na Igreja, devo ser confiante que ela passará.
Notas:
[1]. O termo “própria” significa que em cada cabeça de sacerdote existe um missal individual. Significa que ele improvisa palavras, muda as palavras de lugar, entendendo que deixando o contexto do texto pode-se alterá-lo a bel prazer. Na verdade, até mesmo o contexto pode ser mudado.
[2]. Expressão traduzida de “fratres seiuncti” utilizada no documento conciliar Unitatis Redintegratio para referir-se àqueles que são batizados, mas que se encontram fora da comunhão da Igreja por serem adeptos de outras igrejas, tais como os anglicanos. Em síntese, uma expressão mais sóbria e “educada” que herege.
[3]. Termo utilizado para descrever o intuito do papa Bento XVI para uma celebração mais reverente da liturgia romana, baseada na continuidade (na hermenêutica da continuidade) do sujeito Igreja na história e na sua Tradição, entendendo a nova liturgia como um desenvolvimento e não uma ruptura com o passado e as antigas práticas litúrgicas. Para aprofundar, leia-se: BUX, Nicola. La riforma di Benedetto XVI. La liturgia tra innovazione e tradizione, Piemme 2008.
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NOTAS PREVENTIVAS
O texto que precede esta nota nasce a partir da minha experiência, mas não pretende ser meramente subjetivo, até porque não consigo sê-lo totalmente. Trata-se de um testemunho enraizado na vida litúrgica concreta da Igreja, informado pela história, pela teologia e pela própria consciência eclesial que adquiri esforçadamente. Justamente por isso, sei que ele será recebido com reservas — tanto por setores tradicionalistas quanto por setores progressistas. Antecipar essas críticas é, portanto, um dever de honestidade intelectual.
1. Aos tradicionalistas: sobre obediência, validade e comunhão.
Alguns, situados no campo tradicionalista, poderão afirmar que o texto cede demais, é isento demais (mas que está no caminho certo), que falta nele a radicalidade necessária, ou que reconhecer a validade e a licitude da missa segundo o Missal Romano atual seria uma concessão injustificável (que posso ser mais um “acordista”).
A esses, respondo que reconhecer validade e licitude não equivale a afirmar excelência ou adequação pastoral. A Igreja sempre distinguiu entre validade sacramental, liceidade canônica e conveniência teológica ou espiritual. Meu texto quer precisamente se explicar nesse espaço de distinção, não de confusão.
Ademais, a obediência à Igreja não é servilismo, mas tampouco é insurgência permanente. Permanecer na comunhão visível da Igreja, mesmo em tempos de crise, é uma virtude católica clássica e, escolha mais racional não há. Também porque a história mostra que reformas autênticas sempre brotaram dentro da Igreja, nunca à margem dela.
Entendo que o reconhecimento da crise não autoriza ninguém a crer na absolutização do extraordinário, isto é, em admitir que porquê o rito antigo expressa de modo mais pleno a lex orandi implique canonizar soluções excepcionais, levando a justificar estados permanentes de anormalidade eclesial (Estado de Necessidade duradouro). O extraordinário só é legítimo enquanto ordenado à restauração do ordinário.
A crítica à reforma litúrgica não exige ruptura com a Igreja docente (da qual não faço parte). E que posicionar-se criticamente diante da reforma não implica negar a autoridade da Igreja, mas exercitar o sensus fidelium com responsabilidade, consciência e sobretudo temor de Deus.
Este texto, portanto, não trai a Tradição; ele a compreende como realidade viva, histórica e essencialmente eclesial.
2. Aos progressistas: sobre nostalgia, clericalismo e Vaticano II.
Por outro lado, outros leitores de sensibilidade progressista poderão acusar o texto de nostalgia, esteticismo, clericalismo ou mesmo de rejeição implícita ao Concílio Vaticano II.
A esses, respondo igualmente sem ambiguidades que o que escrevi (que é como penso) não se trata de nostalgia (até porque nasci no final do século XX, quando tudo já tinha mudado), mas de memória. Igualmente, afirmo que o texto não afirma que tudo era perfeito antes da reforma, mas que houve uma ruptura cuja magnitude ainda não foi adequadamente assimilada.
A crítica não é ao Concílio Vaticano II enquanto tal, mas à sua recepção litúrgica concreta. O próprio Bento XVI — cuja autoridade conciliar é inquestionável — distinguiu claramente entre o Concílio e certas interpretações e aplicações posteriores. Criticar a reforma litúrgica não equivale a rejeitar o Concílio.
A centralidade do sacerdote não é clericalismo como possam pensar, mas estrutura sacramental crida pela Igreja e conservada no “novo catecismo”. A liturgia não é um espaço de autogestão da assembleia, mas ação de Cristo Cabeça, mediada sacramentalmente pelo sacerdote. Quando essa estrutura se dilui, não se promove participação, pelo contrário promove-se confusão simbólica e doutrinal.
Universalidade não é diversidade ilimitada. Ou seja, a catolicidade da Igreja sempre se expressou por uma unidade ritual capaz de atravessar culturas sem se dissolver nelas, revelando a universalidade da fé da Igreja. Portanto, a fragmentação da liturgia de paróquia em paróquia é fruto da polissemia do próprio missal e da formação litúrgica do celebrante e da assembleia.
Um último ponto que quero salientar é que a minha crítica ao ecumenismo litúrgico não é hostilidade aos não católicos. Gosto do termo “irmãos separados”, enxergo como a parábola do filho pródigo. O que afirmo é que a tentativa de tornar a liturgia “aceitável” a outras confissões, quando feita à custa da densidade sacrificial e simbólica do rito, empobrece a própria identidade católica e, paradoxalmente, enfraquece o diálogo, porque não existe verdade nisto.
3. Conclusão
Não escrevo para vencer debates, mas para nomear uma ferida. Não escrevo para dividir, mas porque a divisão já existe — e ignorá-la não a cura.
Se erro, erro buscando permanecer na comunhão visível da Igreja, crendo que Deus governa a história também por meio das crises e que nenhuma delas é maior do que a Sua Providência.

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