A CNBB e o “sonho do Concílio”

Fonte da foto: CNBB

Neste feriado, pude ler o documento “Assuntos de Liturgia” publicado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB durante a sua 62ª Assembleia-Geral, que ainda se desenrola na cidade de Aparecida/SP.

Inicialmente, como de costume, pego o documento esperando encontrar nele as ideias de seus autores (ora atenuadas, ora explícitas, na tentativa de agradar a todos os bispos presentes) e entender como funciona o seu discurso.

Ao longo do texto se tem recortes de citações do papa Francisco, do papa Leão, de Santo Agostinho, da própria CNBB etc. Todavia, a ideia expressada é sempre a mesma: o Concílio Vaticano II e seus desdobramentos ainda não plenamente realizados, especialmente a Liturgia.

O documento escreve: “Um exemplo eloquente é a reforma litúrgica, primeira grande intuição de renovação eclesial brotada do Concílio Vaticano II, que permanece entre os aspectos mais criticados e, ao mesmo tempo, mais incompreendidos desse acontecimento histórico e espiritual da Igreja”. Em seguida, desenvolve o raciocínio: “Disso decorre que a Liturgia pós-conciliar só pode ser compreendida em estreita referência ao modelo eclesial proposto pelo Concílio, assim como este não se entende plenamente sem aquela. Negar a legitimidade da reforma litúrgica equivale, portanto, a ferir a comunhão eclesial. A única lex orandi atualmente vigente na Igreja é aquela expressa nas celebrações codificadas nos livros litúrgicos oriundos da reforma conciliar”.

O texto afirma que “a vocação do bispo diocesano consiste em acompanhar, discernir e assegurar que o sonho do Concílio permaneça vivo e fecundo”. Embora no texto original da CNBB, esta frase esteja posicionada antes das demais citações acima, penso que o texto fica muito marcado por este argumento e dele é desenvolvido.

Ora, o que seria o sonho do Concílio?

O texto parecer responder que quanto mais distantes – pelo passar do tempo – dos eventos do Concílio Vaticano II, e quanto mais as pessoas que dele participaram já morreram, dá-se um obscurecimento do seu real significado eclesiológico, isto é, da sua importância na vida da Igreja e em como Ela deve ser entendida pelos homens desta época, que ainda estão vivos, portanto.

Nesse sentido, os bispos escreveram:

(...) temos hoje toda uma geração que não teve contato direto com o Concílio e que, por diversas limitações, somadas à velocidade e à fragmentação das informações, encontra dificuldade para apreender a riqueza, a profundidade e a força dos textos conciliares. Não raramente, deixa-se conduzir por críticas superficiais e por narrativas parciais, que não fazem justiça ao seu alcance teológico e pastoral (...)

A essas críticas parciais, chamam aquilo que se está redescobrindo como o tesouro esquecido em nome das novidades e não como a descoberta de riqueza, profundidade e força dos textos conciliares que foram implementados de maneiras distintas em cada diocese e até mesmo em cada paróquia.

“O sonho do Concílio” é uma daquelas expressões, aparentemente vagas, mas carregadas de sentido entre os saudosistas atuais, que enquanto eram jovens, cresceram a ouvir as “histórias” de tantos “progressos” para o bem do povo, que foram feitos contra o “povo” em nome da ruptura causada pela inovação e criatividade desenfreadas que marcaram as décadas imediatamente subsequentes ao término do Concílio Vaticano II, especialmente no tocante à reforma da liturgia.

Foi a reforma da liturgia o ponto mais visível do Concílio Vaticano II, posto que mudou a vida de todos os católicos, que de uma hora para outra, foram perdendo séculos de tradições, entre hinos, procissões, liturgias piedosas, confissões regulares e até mesmo de adorações eucarísticas e viram as igrejas sendo invadidas por todos os tipos de elementos perniciosos à fé e pela promoção de pessoas e ideias cada vez mais duvidosas e impensáveis anos antes.

Afirmo que aduzir que a reforma litúrgica, tal qual se fez, foi fruto do desejo dos Padres Conciliares é equivocado. Quanta letra morta encontramos na Sacrosantum Concilium? Quantas determinações ali contidas, de fato, foram implementadas? Veja-se este exemplos: “não se introduzam inovações, a não ser que uma utilidade autêntica e certa da Igreja o exija, e com a preocupação de que as novas formas como que surjam a partir das já existentes” ou “Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular, ou “Tomem-se providências para que os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da missa que lhes competem (cf. nº 23, nº 36, §1º, nº 54 da Sacrosanctum Concilium).

De lúcida memória, um personagem conciliar – e muito entusiasta do Concílio Vaticano II, diga-se – o Cardeal Ratzinger, depois papa Bento XVI, escreveu:

Era auspicioso o fato de que, depois de um tempo de experimentos, muitas vezes deformando profundamente a liturgia, houvesse agora um texto litúrgico obrigatório (...)  a proibição agora decretada, do missal que se tinha desenvolvido continuamente através de todos os séculos, desde os manuais para os sacramentos na Igreja antiga, causou na história da liturgia uma ruptura cujas conseqüências só podiam ser trágicas. Uma revisão do missal, como já houvera muitas vezes, e que  desta vez podia ser mais radical do que até então, sobretudo pela introdução da língua materna, tinha sentido e tinha sido determinada com razão pelo Concílio. Mas agora aconteceu mais: o edifício antigo foi derrubado e construiu-se um outro. É verdade que, em grande parte, foi feito com o material do anterior e usando-se, também, os projetos antigos. E não há dúvida: este novo missal trouxe, sob muitos aspectos, um verdadeiro melhoramento e enriquecimento. Mas o fato de ter sido apresentado como construção nova, em oposição ao crescimento histórico, e de o missal antigo ter sido proibido, de sorte que a liturgia não apareceu mais como resultado de um crescimento vivo, e sim como produto de um trabalho erudito e de competência juridical, isso nos prejudicou sobremaneira. Pois agora se devia ter a impressão de que liturgia é algo que “se faz”; não algo preexistente, mas algo que depende de nossas decisões. E aí seria lógico, também, que não somente os eruditos nem somente uma autoridade central fossem reconhecidas como portadores da decisão, mas que, afinal, toda a “comunidade” quisesse adotar sua própria liturgia. Mas quando a liturgia é algo feito por nós mesmos, então ela deixa de nos oferecer o que deveria ser sua verdadeira dádiva: o encontro com o mistério, que não é produto nosso, mas nossa origem e fonte de nossa vida. (RATZINGER, J. Aus meinem Leben, 2006, pp. 128 a 131).

Quando observamos os frutos deste sonho, percebemos um grande pesadelo. Acordar é melhor parte do sonho, porque despertamos para a realidade. Hoje, até bispo há que critique durante a missa – que ele mesmo celebra – a preparação espiritual (o estado de graça) para receber a comunhão e que vocifera, como um lobo e não como bom pastor, contra a Eucaristia, afirmando que não deve ser adorada.

A realidade que se impõe, mesmo que não entendamos porque Deus permite, é que as novas gerações não querem mais liturgias criativas, banais e que só falam de autoajuda barata, sentimentalismos exacerbados, músicas vulgares. As novas gerações, e eu me incluo nisto, querem adorar como fizeram os seus antepassados: em silêncio, na vida doméstica e na igreja.

Talvez, esteja escrevendo este texto sem muita inspiração ou citações, como gosto e costumo fazer, porém senti a necessidade premente de tornar público os pensamentos que tive ao ler o documento da CNBB.

Consola-me o fato de que o tempo é aliado dos que perseveram. Assim, quando estas gerações chegarem ao fim, os nossos filhos é que estarão no lugar deles. Se os criarmos corretamente, na Lei de Deus e da Igreja, sem discursos inovadores, mas no semper idem expressado por São Paulo de que “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre” (Hb 13, 8) e na fórmula de São Vicente de Lérins, com o auxílio de Deus tudo será diferente.

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