Durante décadas, bastava mandar; hoje, muitos já sabem quando obedecer e quando questionar.
Por que a autoridade já não convence e o que os fiéis descobriram ao confrontar a realidade?
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| Fonte da foto: Correio Braziliense |
Ao
iniciar estas linhas, busquei um título interessante, mas nada me vinha à
mente. Porém, lembrei-me da palavra “obnubilação” (não lembro quando a descobri
nem onde), mas lembrava do seu significado, pelo que criei o título deste
artigo e com ele inicio também os pensamentos que desejo compartilhar com os
leitores.
Escrevi o título na busca do Google que me retornou
com essa frase:
O
pesadelo dos obnubilados refere-se à perturbação de mentes obscurecidas, confusas
ou alienadas (obnubiladas) quando confrontados com a realidade nua e crua, a
verdade ou a consciência plena, quebrando sua lógica falsa ou zona de conforto. É a quebra de um estado de confusão ou negação.
Penso
e constato, pelos escritos, vídeos e, sobretudo entrevistas, que há muitos sacerdotes
e bispos que não conseguem entender como as suas ideias já não convencem os
jovens e suas jovens e numerosas famílias. Isto porque, estão como que adormecidos
e obnubilados, isto é, vivem em realidades paralelas e distantes daquelas que cada
vez mais vivem os seus fiéis.
Os
atuais bispos foram formados, em sua maioria, com escassos livros de doutrina e
muito mais na opinião de teólogos que queriam deixar “suas marcas” e inovavam
em tudo, obscurecendo ou até mesmo rompendo com praticamente tudo que lhes era
anterior. Essa mentalidade destruía a continuidade histórica e teológica da
Igreja ou, no mínimo, arrependia-se dela.
Foi
assim, que eles adotaram ideias e ideais como se verdade revelada fossem e
renegaram quase tudo que era crido até pouco tempo antes, tudo para serem “aggiornados”
– atualizados – . Diante disso, deviam ter posturas, frases feitas, slogans[1] e até códigos de conduta
que os fizessem reconhecer-se mutuamente em seus círculos e excluir aqueles que não
concordam ou concordam parcialmente com elas da vida eclesial.
Posso
pensar que nessa ideia de ruptura quanto às ideias e práticas, sobretudo
aquelas litúrgicas, eles se utilizaram da estrutura hierárquica existente para
promover seus pensamentos e conduzir os fiéis para rumos incertos, em nome do
Concílio, pois para qualquer nova criatividade utilizaram o argumento “foi o
Concílio que mandou. Estamos obedecendo o Concílio”.
Durante,
ao menos, quarenta anos depois do Concílio Vaticano II, os fiéis se viram sob
báculos hostis e foram conduzidos às criatividades irreverentes de seus pastores
que, em quase nada, seguiam os textos conciliares, mas que em nome deles agiam,
enquanto eram [2]obedecidos
pelo clero e fiéis.
Todavia,
isso mudou. Os leigos que foram chamados, pelas mesmas autoridades, a serem
corresponsáveis pela evangelização e pela missão da Igreja, ganhando cargos novos,
e, às vezes, hierarquia entre si mesmos, começaram a estudar a sua fé, os
santos, a Palavra de Deus (Tradição e Escritura) e perceberam que muito lhes
havia sido tirado, ocultado e sobretudo, muitas vezes, negado. Quando, humildemente
questionavam os seus pastores, recebiam respostas evasivas: “é para o bem de
vocês(...) A Igreja mudou (...) Precisamos ler os sinais dos tempos (...) Isso
não se usa mais (...) Não precisa disso tudo (...)”.
Essa
mudança não passa despercebida por eles, que continuam na ideia de que suas
autoridades são suficientes para convencer hierarquicamente os pensamentos e atitudes
das novas gerações de católicos. Utilizam de sua Ordem e de seus postos
hierárquicos pois sabem que a obediência é uma virtude basilar de todo o
catolicismo autêntico. Então mandam esperando que obedeçam.
No
fundo, os sonhadores pensam que as suas autoridades seriam exercidas sobre
fiéis tão obnubilados quanto eles. Esqueceram que esse sonho está na cabeça de
quem continua adormecido e longe da realidade e é aí que nasce o seu pesadelo.
Os
jovens (inclusive este que escreve) têm acesso, graças à internet, por vontade
de Deus, aos inúmeros tesouros dos escritos dos Santos Padres, dos Santos
Doutores, dos Santos em geral, e do Sagrado Magistério autêntico e ortodoxo, e
aí, quando se deparam com as ideias dos seus pastores, conseguem assentir ou
dissentir plenamente e entendem quando uma ordem é legítima ou não, isto é,
quando deve ser obedecida ou não.
Repare,
leitor, que não se trata de uma escolha ao que obedecer – pois a obediência
cega não é doutrina católica, e disto temos exemplos na bimilenar história eclesiástica,
como os mártires de Uganda, os mártires ingleses do século XVI e tantos outros –
ou mesmo a quem obedecer: não temos dúvida alguma do que disse Nosso Senhor “Quem
vos ouve, a mim ouve” (Lc 10,16), temos dúvida se quem diz, para que ouçamos,
fala em nome do Senhor ou em seu próprio nome.
Com
isso, os jovens e suas famílias continuam aquela busca por pequenos oásis de
doutrina e liturgia em meio aos desertos cada vez maiores em latitude e
longitude na Igreja, porque anseiam sempre por permanecerem fiéis a Cristo na Sua
Igreja e não às ideias particulares de sacerdotes e bispos, e até de leigos com
“carismas” e liderança. Em verdade, buscam portos seguros em meio ao mar de
insegurança pelo qual navega a Barca de Pedro neste momento da história.
Para
encerrar, repito o que escrevi quando da Peregrinação Paris-Chartres do ano passado sobre o medo das autoridades episcopais francesas e do Dicastério para
o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos atual: “Eles têm medo porque não
querem admitir que seus projetos de revolução só atingiram suas próprias
gerações e que, quanto mais o tempo passa, mais toda aquela agitação da segunda
metade do século XX, no pós Concílio Vaticano II, vai sendo esquecida e o
próprio Concílio Vaticano II vai se tornando somente mais um dentre todos os
outros concílios da história da Igreja.
Não se trata de “etarismo” ou da velha posição “nós e eles”, mas simplesmente de opinião de quem não entende como pode haver tanta incoerência entre posicionamentos papais sucessivos sobre o mesmo fato: a liturgia antiga depois da reforma paulina de 1970”.
O verdadeiro problema, portanto, não é a autoridade em si, mas o seu uso quando desvinculado daquilo que deveria servir: a fidelidade à Tradição e ao Magistério autêntico da Igreja
Por
fim, em outro momento, quem sabe, eu procure escrever também sobre o argumento
que pode ser levantado contra estas linhas: “Você age como um protestante, mas faz
livre exame do Magistério e não da Escritura”.

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